Passados quinze dias deu-se a dolorosa despedida. Sim, dolorosa é a palavra certa...
Abraçados em frente à porta do prédio da Sara, lágrimas percorriam-lhe a face... Quando voltaria a vê-lo novamente?
Passaram-lhe todos os cenários pelo pensamento, tudo o que poderia correr mal em cinco meses de distância ou mais. Sim, o mais provável era correr tudo mal... Ela não o queria largar, não o queria perder... Rapidamente ele afastou-se dela, já não aguentava mais aquela tortura, virou as costas e não voltou a olhar para trás. Ela ficou a vê-lo partir encostada ao portão, com o coração destroçado. Faltavam-lhe até forças para subir as escadas.
Assim que ele desapareceu, ela sentou-se na escadaria, baixou a cabeça e chorou até não lhe sobrar uma única lágrima. Finalmente subiu, movida apenas por obrigação. Chegou ao 3º andar e encostou a cabeça à porta, respirou fundo e recompôs-se, não queria que os pais a vissem assim. Não dormiu toda a noite e quando deu por si já eram sete horas.
Nenhuma outra viagem da Madeira para Vila Real custara-lhe tanto. Chegou ao aeroporto de Sá Carneiro onde o João, amigo de longa data, estava à sua espera como de costume, mas esta vez fora diferente. Ela mal falou, pela primeira vez não conseguiu disfarçar o seu estado de espírito. Foi calada durante a viagem de metro inteira, ele tentou animá-la fazendo algumas brincadeiras, mas nada conseguia fazer a Sara feliz, acabou esboçando um pequeno sorriso apenas por simpatia.
- Custa-me ver-te assim e não poder fazer nada... Esse rapaz nem sabe a sorte que tem em ter-te assim apaixonadíssima por ele. - disse o João.
A Sara baixou a cabeça e deixou escorrer uma lágrima pela bochecha.
- Não fiques assim pequenina, logo logo estão juntos. Agora deixa-me ver o teu lindo sorriso.
- Sabes... Se ele precisasse de oxigénio eu deixava de respirar.
Chegou a Vila Real mais desorientada que nunca, deixou a mala encostada à cama, atirou-se para cima desta, pôs as mãos à cabeça e deu um grande suspiro.
"Como vou fazer dois testes depois de tudo isto? Como vou aguentar estar aqui sozinha? Como vou estudar com a cabeça neste estado? É muita coisa, não consigo estudar isto tudo, estou farta disto não quero estar aqui!"
A Sara, como já seria de esperar, começou a stressar, sentia-se fraca e mais uma vez desistiu do semestre...
Falou com o Ricardo no Skype e comprou uma viagem para a Madeira datada para o dia seguinte.
Sentia-se insegura... As certezas de uma vida inteira começaram a desvanecer.
"Será que quero mesmo ser Veterinária? Nunca vou conseguir acabar este curso..."
Falta de motivação, tristeza, inseguranças, quem consegue estudar assim?
Faltava-lhe o carinho dos pais, do Ricardo, o cheiro do mar pela manhã, o calor do Sol todos os dias...
Acordou, fez a mala, pôs outras coisas em outras malas e encostou-as à parede para já ficarem preparadas - estava mesmo decidida e não tencionava voltar a Vila Real. Decisão tomada por influência do fracasso, pela incapacidade de ultrapassar obstáculos e pela sua tendência natural de desistir de tudo o que é complicado.
Chegou a hora de apanhar o autocarro para o Porto. Estava um dia péssimo em Vila Real, chuva, vento, frio, o que ainda influenciou mais a decisão precipitada da Sara. Sentia-se feliz por deixar aquele sítio horrível e voltar ao Sol.
Novamente, no Porto, o João esperava-a, incansável como sempre, acompanhou-a até ao aeroporto. Estava triste, achava que seria a última vez que a iria ver, uma vez que ela pensava entrar em Psicologia na Universidade da Madeira. Ela, por outro lado, estava radiante e não conseguia esconder isso.
Na altura do check in a bagagem excedia o peso permitido, mais uma vez, estava lá o João para acudir a Sara, guardando na sua mochila alguns dos cremes que faziam mais peso.
- Agora quando te devolvo isto tudo?
- Tonto, ainda cá volto daqui a um mês ou dois para trazer o resto das malas.
Enquanto esperavam pela hora de entrar na porta de embarque, ele disse:
- Esta pode ser a última vez que te vejo.
- Ainda somos muito novos...
- O tempo voa, Sara. Estás a ver este aeroporto? Não se compara às saudades que vou ter de ver o teu sorriso.
- És mesmo tonto!
- Posso-te abraçar?
- Claro que sim.
Chegara a hora de ir para junto da porta de embarque e o João acompanhou-a e levou-lhe a mala até onde pôde.
- Boa viagem pequenina.
Quando se afastou, a Sara reparou que escorriam-lhe algumas lágrimas pelo rosto.
SMS: "Adoro-te". Ela acho aquilo tudo um pouco estranho por isso fingiu que não ouviu e seguiu radiante para a porta.
O avião estava atrasado cerca de duas horas, a gata não parava de miar e uma dor de cabeça terrível começou a atormentar a Sara... Assim que se lembrou de tirar a camisola para a envolver, a Saphyra calou-se e adormeceu, entraram no avião e seguiram viagem para a ilha.
Estiveram juntos dois dias depois. No fim da tarde, a Sara fez referência às dúvidas que lhe atormentavam o pensamento.
- Estás no curso que queres, tens um namorado fantástico, tens tudo e estás sempre a reclamar. - de tudo o que o Ricardo disse, isto foi o que lhe ficou na cabeça.
Quando chegou a casa a Sara esteve a conversar com a mãe. Nada como a compreensão e o carinho da nossa mãe em momentos difíceis e de incerteza.
- Estive a falar com o Ricardo sobre isso... Ele normalmente não fala muito sobre essas coisas porque não gosta de ouvir as pessoas se lamentarem, mas quando fala, apesar de meio bruto, às vezes diz o que é preciso ouvirmos... - disse a Sara.
Contou a conversa com o Ricardo à mãe e ela disse-lhe num tom sábio e carinhoso:
- Ele tem razão filha... Sabes... Às vezes temos as oportunidades na nossa mão, só precisamos de fechá-la, porque se deixarmos a mão aberta elas voam apenas com um pequeno sopro. No entanto, é uma decisão que só te diz respeito a ti. Eu não estudei porque não pude, mas tu estás a ter essa oportunidade.
(continua.)