sexta-feira, 1 de junho de 2012

Os amigos são o maior tesouro que temos.

A manhã decorria normalmente. A Sara acordou cedo para a sua corrida matinal, chegou a casa, tomou duche e foi comprar pão com a mãe. Chegaram a casa e o pai estava na cama como de costume.

- Sara, anda aqui depressa! - gritou a mãe.
- O que é que foi? Agora não posso.
- Passa-se alguma coisa com o teu pai, tentei acordá-lo e ele não acorda, anda aqui por favor.

A Sara foi ao quarto dos pais, olhou para a mesa de cabeceira e viu uma caixa vazia de comprimidos de paracetamol.
- Mãe chama uma ambulância, o pai tomou aqueles comprimidos todos.

A ambulância chegou e levou-os para o hospital. Durante a viagem, a Sara repensou em todas as discussões que havia tido com o pai, pensou em tudo o que lhe tinha dito e, sobretudo, pensou nas últimas palavras que lhe disse na noite anterior: "A última coisa que quero é ser como tu." Olhou para o lado, a mãe estava a chorar. Ela detestava ver a mãe chorar, sentiu-se impotente e um tanto ao quanto culpada pelo que o pai tinha feito.
Pouco depois recebeu uma mensagem do Ricardo.

- Olá amor!!
- Olha não estou muito bem agora... Depois falamos desculpa.

Assim que soube que o pai iria ficar bem, mandou mensagem ao Ricardo a contar o que se tinha passado e a desculpar-se pela resposta que lhe tinha dado. Conversaram acerca da maneira como ela tratava o pai e por fim ele reconfortou-a dizendo que o importante era que ele iria ficar bem e tudo não havia passado de um susto, uma oportunidade para ela repensar e corrigir a maneira como o tinha tratado até então.
No Sábado seguinte, o médico deu-lhe alta. Foram os três para casa dos amigos de São Vicente e a Sara aproveitou para estar com o Ricardo. O dia decorreu normalmente, e ela, pela primeira vez ao fim de muitos anos, não se sentia incomodada com a presença do pai, sentia-se aliviada e grata por ter a oportunidade de mudar a relação que partilhava com ele. Tinha noção de que não seria fácil, mas estava disposta a dar tudo por tudo para que as coisas entre eles fluíssem de forma diferente.



Já tinha passado mais de uma semana desde que tinha estado com o Ricardo e, para piorar a situação, as discussões nunca tinham sido tão constantes nem a frieza tão eminente. A Sara começou a habituar-se a ausência dele, não que o amasse menos ou não quisesse estar com ele, apenas custava menos a cada dia que passava. As discussões ajudavam, a frieza também fazia com que ela tivesse menos vontade de o procurar para conversar. Nos últimos dois dias, salientou-se um decréscimo da ansiedade que costumava sentir para a chegada da hora em que ele chegava a casa e finalmente podiam falar, o vazio estava definitivamente a diminuir a pouco e pouco e até os dias custavam menos a passar. 
Neste dia em particular, as horas passaram a correr, mesmo sem que ela tenha feito nada de especial. Acordou, viu uns episódios de Suburgatory (uma das dezenas de séries que ela acompanhava) e saiu para correr ao fim da tarde. Porém, quando finalmente ele chegou a casa e puderam conversar, ela não pôde deixar de sentir um aperto sufocante no peito com a falta de vontade de falar demonstrada pelo Ricardo. "Não há nada que possa fazer em relação a isto", pensou e foi ver o filme The Notebook pela terceira vez. De repente, pausou o filme e caiu na realidade. Dentro de poucas horas os pais estariam a entrar no avião para irem para Londres e só se voltariam a ver no Natal, ou seja, daí a 6 meses. 6 meses! Se apenas 3 já lhe tinham custado tanto... Novamente, tentou falar com o Ricardo, desta vez para desabafar e em busca de algum conforto. Não adiantou muito sobre o que estava a sentir, apenas disse que seria um dia complicado e que seria dificil ver os pais partir. 
- Não vás ao aeroporto então. - disse ele.
- Se não for a minha mãe fica triste.
- Então não te queixes.
- Não me estava a queixar.
- Hum ok.

E parou por ali a conversa. A Sara ficou com a sensação de que estava a incomodar o Ricardo, portanto partilhou tudo o que lhe ia na cabeça com um amigo que estava presente sempre que era necessário.

- Amanhã vai ser um dia complicado para mim... Muito complicado mesmo.
- Então porquê? - perguntou o Filipe
- É amanhã que os meus pais vão para Londres e vai imensa família ao aeroporto, só volto a estar com eles no Natal.
- Tenho exame à tarde, mas logo que possa estarei cá para ti.

Assim que as lágrimas secaram, ela tentou puxar conversa com o Ricardo, mais uma vez, agora com assuntos mais banais, no entanto, o clima tenso e gelado manteve-se. Eram quase 3 da manhã, por isso ela chegou a conclusão de que não valia a pena continuar ali a esforçar-se para falar com ele, ele não iria facilitar nada.  No entanto, a Sara não se foi deitar ansiosa e perturbada como nos outros dias, mas sim calma, pois já sabia exatamente com quem podia contar após a partida dos pais, e com a certeza de que mesmo que batesse no fundo do poço, estaria lá o Filipe para a puxar de volta à superfície, tendo como pensamento de fim de dia "os amigos são o maior tesouro que temos".




Aqui digo-te, Filipe, obrigada por existires, obrigada por tudo o que fizeste por mim, obrigada por todas as vezes que me ouviste e aconselhaste e obrigada por fazeres questão de marcar presença na minha vida! Mil e um obrigadas não chegavam, por isso resta pedir-te desculpa se alguma vez não estive presente para ti da maneira que sempre estás para mim, és das pedras mais preciosas do meu baú :)

(continua)